
Há uma relação dinâmica entre os testes e retestes dos protótipos e os ajustes e reajustes. A razão que subjaz a essa relação é muito simples de compreender, mas pode ser bastante complicado aceitar: nenhum artefato humano é perfeito, nem mesmo as urnas eletrônicas usadas no Brasil. Isso significa que os protótipos precisam ser testados para identificar falhas, com ajustes imediatos que, por sua vez, devem ser retestados para identificar novas desconformidades e dar origem a uma nova submissão a reajustes, até que possam ser considerados aprovados em todos os testes. É aqui que reside a resistência de quem não entende de tecnologia em aceitar que todas elas têm falhas: a aprovação de um artefato tecnológico não significa que ele seja perfeito, mas que foi considerado adequado para os aspectos que a equipe de criação considerou importantes. Acontece que uma equipe de cientistas é capaz de cobrir apenas os aspectos de vulnerabilidade de uma tecnologia com os quais está familiarizada, não todos. Há diversas outras questões extremamente importantes que os cientistas desconhecem completamente, principalmente os que estão centrados nos usuários, clientes e consumidores (o que é justamente o caso das urnas eletrônicas brasileiras), que certamente não passaram pelos testes devidos relativos à confiabilidade com os eleitores. É aí que entra a ideia de iteração, que é o nome técnico do processo de ajustes e reajustes que fazemos nos protótipos e em todos os aspectos relacionados a eles: conceituais, relacionais, processuais, estruturais, funcionais e ambientais.
A interação é crucial para qualquer artefato tecnológico, pois garante que a sua versão final seja eficaz, útil e esteja de acordo com as expectativas do público-alvo. A eficácia refere-se ao alcance dos objetivos pretendidos, em conformidade com os respetivos requisitos, principalmente à aceitação não coercitiva por parte dos respetivos stakeholders. Se o protótipo não atender às expectativas de todos os seus públicos, ele não pode ser considerado uma tecnologia. Isso implica a realização de inúmeros testes com cada público-alvo, para que o protótipo se adeque às suas exigências e seus resultados sejam racionalmente e moralmente aceitos. Enquanto houver discordância fundamentada, novos ajustes e reajustes deverão ser realizados em um processo iterativo que só se completa quando as exigências de todos os públicos forem atendidas. Imagine um medicamento que mata uma parte do seu público-alvo: se ele não for consertado ou não for recomendado a esses pacientes, não pode ser considerado uma tecnologia ou um produto finalizado.
Por que os ajustes e reajustes são necessários e, muitas vezes, obrigatórios? Por cinco grandes motivos. O primeiro é a necessária e essencial melhoria contínua da qualidade do produto com base na experiência do usuário. Cada iteração permite refinar funcionalidades, estéticas, usabilidade e outros aspectos centrais que tornam a tecnologia mais intuitiva, agradável e confiável, pois os usuários veem nas melhorias os resultados de suas solicitações. Isso torna a tecnologia mais alinhada às necessidades e expectativas de quem a utilizará e sofrerá suas consequências operacionais.
O segundo grupo é a redução de custos e de riscos. A iteração tem a magia de encontrar falhas e pontos de melhoria que a equipe de cientistas jamais imaginou na criação e que jamais imaginaria sem a manifestação dos usuários. Corrigir as imperfeições na fase de prototipagem é muito menos oneroso do que quando já se trata de tecnologia, uma vez que as consequências desastrosas de suas falhas podem gerar bilhões de reais em indenizações e até mesmo a morte de milhares de pessoas. A interação, portanto, mitiga os riscos decorrentes de falhas críticas, especialmente em produtos complexos (como urnas eletrônicas). Ainda que uma tecnologia seja finalizada no exterior, se for adotada em outro país, deve ser submetida a testes para identificar pontos de ajuste, que sempre há. É por isso, por exemplo, que os medicamentos são testados em todo o mundo.
O terceiro grupo é o da validação e da viabilidade. Os ajustes e reajustes devem começar no conceito do protótipo e prosseguir ao longo de toda a vida útil da tecnologia. Enquanto os testes não indicarem adequação, a futura tecnologia não poderá ser considerada viável, pois poderá ser contestada ou, no caso de produtos tecnológicos de venda em massa, não ser adquirida. Ajustes e reajustes reduzem a incerteza sobre inúmeros aspectos que comprometem a credibilidade e a confiança do público na tecnologia.
O quarto grupo é a aceleração do processo de transformação do protótipo em tecnologia. Os ajustes e reajustes geram um ciclo de confiança baseado na trilogia construir, testar e aprender que torna o processo criativo mais dinâmico, confiável e rápido. As metodologias ágeis hoje disponíveis permitem fazer e refazer esse ciclo com mais frequência, rapidez e níveis crescentes de aprendizado, que se materializam em protótipos adequados às expectativas do público-alvo e de seus stakeholders.
O quinto e último grupo é o da melhoria contínua e da comunicação constante. Só é possível melhorar continuamente uma tecnologia se houver um canal de comunicação efetivo entre a equipe de criação e os clientes ou o mercado. Novamente: nenhuma tecnologia humana é perfeita; todas têm muitas falhas que os criadores não conseguem ver. É por isso que é necessário que se ouçam com atenção as reclamações, informações e solicitações para que possam ser melhoradas. Quem garante, por exemplo, que uma tecnologia supostamente inofensiva não seja cruel para determinado grupo de usuários? O engajamento dos usuários é fundamental nesse intuito.
Ajustes e reajustes em protótipos e tecnologias não devem ser vistos como aumentos contínuos de custos. É o contrário: são dinheiro, tempo e outros recursos investidos para evitar males trágicos e muito mais onerosos. Cada ponto de reclamação não pode ser contestado: é preciso modificá-lo e apresentar a alteração e os resultados aos reclamantes para obter suas aceitações; se não obtiver, reajustes precisam ser feitos. Essa é a prática das tecnologias de sucesso. Inclusive das urnas eletrônicas.
(*) Daniel Nascimento-e-Silva, PhD, Professor e Pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM)